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“Empreender é a manifestação da possibilidade de agir de forma construtiva”

49% dos jovens brasileiros apontam como próximo passo na carreira ter o próprio negócio. Contudo, entre a ideia e a ação há um caminho árduo que pode não ter um final feliz. De acordo com o Sebrae, 80% dos novos empreendimentos fecham as portas no primeiro ano.

Marcelo Salim, empreendedor Endeavor, destaca que algumas empresas quebram, pois tem de quebrar. É um processo natural, “são empresas que nascem para não ser inovadoras, nascem para repetir, nascem sem nenhuma preocupação de mercado, nascem sem conhecer o cliente. Nascem errado! Elas morrem!”, comenta Salim.

Os números, segundo Raphael Machado, Coordenador Nacional de Vendas da Jiva Gestão Empresarial, refletem a falta de conhecimento básico sobre administração, como: ponto de equilíbrio, fluxo de caixa, estoque, etc. “Por incrível que pareça muitos empresários ainda não têm o conhecimento necessário sobre esses conceitos, o que pode levar por água a baixo todos os outros investimentos realizados no negócio”, escreve.

Fernando Gimenez, Prof. da Universidade Federal do Paraná (UFPR), corrobora: “muitas pessoas empreendem a partir de seus conhecimentos técnicos, mas não têm nenhuma noção de como conduzir uma empresa”. Para ele, há uma ideia equivocada que para empreender há a necessidade de se trazer um produto, contudo nem sempre é isso que o consumidor busca.

Ele comenta que se analisarmos o mercado com atenção, nosso consumo cotidiano se baseia em produtos ou serviços que não se transformaram há muito tempo. Logo é possível ser bem sucedido ao atender às necessidades básicas e já sedimentadas. “O caminho está na busca do entendimento de como o negócio em que estamos empreendendo funciona”, detalha Gimenez.

O outro lado

Este processo leva a outras métricas do Sebrae, onde a maioria dos empreendedores pretende estar. Segundo os dados, após dois anos, 76% das micro e pequenas empresas mantêm suas atividades.

De acordo com a instituição, em 2006, 48% dos empreendimentos surgiam a partir da falta de oportunidades ou necessidades financeiras. Hoje, o cenário é outro. 69% dos empreendimentos surgem da vontade de empreender. Ou seja, a cada três pessoas que iniciam um empreendimento, duas o fazem por uma oportunidade de negócios. Isso muda completamente a qualidade do empreendedorismo no país.

Entrevista

Gimenez comenta que empreender tem a ver com nossa necessidade de realização. Ele detalha em entrevista exclusiva ao Cultura por que o empreendedorismo é importante e quais são os desafios encontrados ao empreender.

Por que empreender?

Essa é uma pergunta fundamental. Empreender, em minha opinião, faz parte da natureza humana. Assim, empreender é a manifestação da possibilidade de agir de forma construtiva. Todos podemos empreender para construir algo que pensamos possa ser útil ou gerar valor, não apenas monetário, para o mundo em que vivemos. Empreender tem a ver com nossa necessidade de realização. Este é um conceito formulado por David McLelland no começo dos anos 60 e que, ainda hoje, nos ajuda a compreender o comportamento empreendedor. Ou seja, empreendemos porque sentimos uma vontade quase que irresistível de realizar, criar e construir. Escrevi um post em um blog onde falo sobre esse tema. Ele se chama os 5Ps do empreendedorismo.  

Para empreender é preciso necessariamente abrir um negócio?

Abrir um negócio é apenas uma das formas de empreender. Podemos empreender sendo empregados em uma organização. Isto ocorre, por exemplo, quando se cria uma nova área de negócios dentro de uma empresa. Pode-se empreender no setor público, criando organizações governamentais.

Quais são os principais desafios encontrados hoje pelo empreendedor?

Penso que os principais desafios enfrentados pelos empreendedores referem-se à obtenção de recursos para empreender. Como disse antes, empreender faz parte da natureza humana, mas muitas vezes não conseguimos criar nossos empreendimentos pela falta de recursos ou pela falta de informação sobre como acessá-los.

Segundo a Endeavor, houve uma mudança no perfil do empreendedor brasileiro, ele não está mais abrindo um negócio por necessidade, mas com foco no crescimento profissional e independência financeira. Você concorda com esta análise, o que mudou?

Sim. Dados do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), pesquisa internacional sobre atitude empreendedora em muitos países, mostram que no caso do Brasil, nos últimos três ou quatro anos os empreendimentos que têm surgido são motivados mais por oportunidades percebidas do que por necessidade de sobrevivência. Essa motivação por oportunidades está relacionada à busca por crescimento profissional e independência financeira. Mas, em situações de crise econômica há sempre o surgimento de empreendimentos por necessidade. Talvez, 2015 represente uma mudança nas estatística brasileiras. Vamos ver o que a pesquisa GEM nos mostrará no próximo ano.

Rotina, disciplina e estratégia são importantes para um empreendedor. Qual delas é mais importante em cada etapa?

Os três aspectos acima são importantes em qualquer projeto empreendedor. Costuma-se dizer que a criação de um novo empreendimento passa por quatro etapas: iniciação, preparação, lançamento e consolidação. Eu diria que a disciplina e persistência são fundamentais nas duas primeiras etapas. Enquanto que o estabelecimento de rotinas e o constante pensamento estratégico são mais essenciais nas etapas de lançamento e consolidação.

A base do empreendedorismo é a inovação?

O economista Schumpeter, em seus livros, foi um dos primeiros a associar o empreendedorismo à inovação. Ele sugeriu que há diferentes formas de inovar nos negócios que vão desde á criação de um novo produto ou processo, passando pelo uso de novas matérias primas, novas organizações e chegando a novos modelos de negócios. Associa-se, também, o empreendedorismo a duas formas de inovar: incrementalmente ou radicalmente. Inovações radicais são aquelas que trazem o novo, o inexistente, por exemplo a criação da impressoras tridimensionais. a inovação incremental, por outro lado, se associa à busca de aperfeiçoamentos e melhorias em produtos ou processos já existentes. Algo muito comum em nosso mundo. Veja-se, por exemplos, as constantes melhorias e ajustes em programas de computação.

Por está abordagem a inovação no empreendedorismo é algo que se busca, com estudo de mercado e conhecimento, ou parte daquele princípio da necessidade?

A inovação pode surgir de muitas maneiras. ela pode ser identificada por meio de estudos e pesquisas de mercados, mas pode ser, também fruto de necessidades percebidas ao acaso. Hoje li um texto interessante que conta como surgiu uma inovação no mercado que é o cortador de sachês. Um empreendedor percebeu essa possibilidade ao ser atendido em uma lanchonete quando o atendente pegou uma tesoura e abriu alguns sachês de mostarda para ele.

Para começar a empreender é preciso ter capital?

Em nossa sociedade, a maioria dos empreendimentos surge por meio da aplicação de recursos financeiros em máquinas, equipamentos, matéria-prima, contratação de pessoas, etc. Assim, é necessário ter ou obter acesso a capital para empreender. O que vai variar é a quantidade de dinheiro que será necessário.

Alguns indicadores do Sebrae apontam muitas empresas não resistem ao primeiro ano. Onde está o erro? Qual o caminho para esses empreendedores que abrem e logo fecham?  Os que não são inovadores, eles devem desistir?

Há vários aspectos que explicam o insucesso empresarial nos primeiros anos. A causa mais comum de fracasso é o desconhecimento ou a ausência de habilidade administrativas. Muitas pessoas empreendem a partir de seus conhecimentos técnicos, mas não têm nenhuma noção de como conduzir uma empresa. Outras fracassam por não terem dimensionado de forma adequada a necessidade de recursos financeiros. Mas, o fracasso não está necessariamente ligado à falta de um produto inovador. É possível empreender fazendo as coisas tradicionais de forma eficiente. Nem sempre os consumidores estão atrás de um produto novo. Se prestarmos atenção em nossas experiências de consumo cotidiano veremos que há muitas compras que são feitas em cima de produtos ou serviços que não se transformaram há muito tempo. É possível ser bem sucedido atendendo necessidades estáveis de nossa vida contemporânea. O caminho está na busca do entendimento de como o negócio em que estamos empreendendo funciona.

O que são empreendedores de alto impacto?

Empreendedores de alto impacto são aqueles que criam empresas que têm crescimento acelerado, acima de 20% ao ano em termos de faturamento e número de empregos gerados. É um conceito que é incentivado pelas atividades do Instituto Endeavor no Brasil.

Qual a importância deste profissional ao mercado?

A lógica por trás do empreendedorismo de alto impacto é que este é um fenômeno que pode auxiliar de forma mais rápida no processo de desenvolvimento de uma sociedade.

Considerações finais

Gostaria de convidar os leitores a conhecerem meu blog em que publico sobre o empreendedorismo: Empreendedorismo e Estratégia em Empresas de Pequeno Porte

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Sobre o Entrevistado

gimenezFernando Gimenez é Dr. em Administração, Prof. da Universidade Federal do Paraná (UFPR)  e ex Coordenador de Empreendedorismo e Incubação de Empresas da Agência de Inovação da UFPR.

 

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