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Eu não sou das suas!

[Por Alloyse Boberg]

Ser mulher é uma delícia mesmo. O universo feminino é repleto de coisas bacanas e também mistérios.  Somente as mulheres percebem coisas realmente específicas, como a diferença entre a cor salmão e o lilás. Só mulheres conseguem digitar enquanto você fala e ainda dão uma resposta adequada para sua pergunta. Mulheres sempre têm dicas úteis para coisas estranhas que acontecem no dia a dia, como, por exemplo, como tirar a pasta de dente.

Seria mesmo uma delícia ser mulher se esse universo citado acima fosse, de fato, respeitado, principalmente no ambiente de trabalho. É evidente que as mulheres conquistaram marcas relevantes no âmbito do trabalho e que esse papo do “espaço que as mulheres ainda precisam conquistar” parece muito chato e até ultrapassado.

Mas, tem algo que é muito mais ultrapassado do que esse papo chato: o assédio no trabalho. Você já parou para pensar que o tema assédio é tão antigo quanto à própria história das corporações (e até da história da humanidade)? Com certeza você já viu ou soube de um colega que cantou uma colega (se não foi você, rsssss). Ou soube de um chefe que fez aquele comentário sobre o decote da nova secretária. Ou aquele gerente que se insinuou para a subordinada.

Existem inúmeras nuances na questão do assédio no trabalho, mas algumas merecem destaque. Uma delas é que sexo é um jogo de poder. Sim, a persuasão para conseguir o seu alvo é um jogo envolvente e para lá de excitante em que um dos participantes irá ceder. E ao ceder, o conquistador mostra seu poder sobre o outro que, até então, era apenas verbalizado. Quer dizer, poderia ser mostrado também pelos olhares, toques indelicados e até expressões inesperadas. E por isso mesmo, esse jogo de poder faz com que muitos desfoquem do que realmente é importante no trabalho, como o trabalho, por exemplo.

O que ocorre é que, muitas vezes (e falo amplamente mesmo) as mulheres são vítimas de um jogo do qual nem sempre querem participar. Apenas porque colocaram um batom bonito ou arrumaram o cabelo de um jeito bacana ou investiram num belo salto, para alguns homens, essas atitudes são indicativos de que elas estão afim de participar desse jogo. Existe aquela desculpa masculina de que “a mulher é que provocou”. A roupa é, de fato, uma extensão do trabalho e os profissionais, em geral (homens e mulheres), deveriam prestar atenção se sua roupa é mesmo adequada para aquele ofício. Mas, usar uma roupa ou um batom como desculpa para o assédio é hipocrisia.

Como a negativa muitas vezes aparece de forma tímida, devido ao constrangimento causado às mulheres, muitos homens podem continuar insistindo no jogo. Por isso, digo às damas: fale diretamente e abertamente que você não está afim do jogo de sedução e está ali para trabalhar.  E mais, pontue que você não gosta desse tipo de situação no trabalho.

Outra questão é que os ambientes de trabalho ainda são muito machistas. Os homens dizem que não, mas muitos ainda depreciam quase tudo o que envolve o universo feminino – não apenas fazem comentários em relação às roupas das mulheres, mas também em relação às opiniões de algumas profissionais sobre uma decisão ou outra, por exemplo.

Eis um fato de que as corporações não chegam sozinhas às suas decisões. Elas são povoadas por pessoas, homens e mulheres, que podem sim contribuir de modo colaborativo para o crescimento de uma organização, desenvolvimento de uma região e por que não de um país. Então, que diferença faz se a solução veio por meio de um homem ou uma mulher? Que diferença faz se uma mulher usa um batom vermelho ou rosa? Que diferença faz se uma mulher usa cabelo preso ou solto?

Em pleno século XXI, assuntos tão velhos como o assédio e o machismo, parecem não se encaixar mais no cenário vivido atualmente. Não seria hora de amadurecer, em definitivo, essas questões e se focar no que, efetivamente, é importante para as corporações?

p.s: acredito que as mulheres também promovem o assédio. Mas, é sabido que o assédio masculino é muito mais comum do que o das mulheres, principalmente dentro das corporações. Fora dela, o machismo e o assédio masculino são ainda mais evidentes. Caso não fosse, que sentido teria criar vagões exclusivos para as mulheres, como já ocorre em algumas cidades do país?

 

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  • Claudinei

    Alloyse, excelente o post, e, infelizmente é uma pena que em pleno século XXI ainda tenhamos que falar sobre algo tão retrógrado como assédio moral por um simples batom vermelho, uma roupa ou um cabelo solto. Alguns homens de fato acreditam que tais sinais denotam “disponibilidade”. Falta-nos um longo caminho a trilhar contra o assédio contra as mulheres e o preconceito que essas sofrem.

    Por isso, o assunto é necessário!

    Abraço!
    Claudinei