Pressione "Enter" para pesquisar ou "Esc" para cancelar.

Evoluímos, mas ainda atribuímos notas a nós mesmos

Em 1919 Henry Ford implantou o sistema de produção em série e revolucionou a indústria. Contudo, quase 100 anos se passaram e as empresas ainda atuam dentro desta lógica produtiva e avaliativa. Ou seja, seguindo as teorias de Tailor e mais recente as de Aubrey Daniels, as corporações implantam sistemas de metas e atribuem notas ao esforço dos colaboradores em uma escala de 1 a 5.

O termo cunhado por Daniels é conhecido como ‘gestão de desempenho’ e partir da ideia de atribuir “feedbacks” específicos às pessoas que atuam em uma determinada organização. De acordo com David Rock, a esperança era que isso permitiria um pagamento justo a quem estava trabalhando mais, motivando assim os bons funcionários e facilitando a demissão dos improdutivos. O resultado, segundo avaliação de especialista, é que o sistema deu ruim. 

Para ele, a principal falha no sistema está em seu objeto final: pessoas. Rock explica que nós  – humanos – não somos lá muito lógicos ao recebermos feedbacks e este quadro agrava-se quando o que está em jogo é nossa competência, orgulho e profissionalismo.

Isto ocorre devido ao nosso cérebro ser ‘programado’ para ler o ambiente em que estamos e, com isso, somos direcionados à prestar atenção às mudanças sociais ao nosso redor.

Ou seja, quando somos expostos a uma avaliação, que nos atribuirá uma pontuação, automaticamente entramos em modo de defesa e confrontamos esta ‘ameaça social’. Rock escreve: “Os gestores que usam o sistema de pontuação (de 1 a 5) descobriram que dar às pessoas qualquer pontuação que não seja a mais alta gera um intenso debate. O resultado é que os gestores tendiam a evitar este conflito pontuando o seu pessoal na parte média da curva”.

A GE, nos anos 80, tentou resolver o problema atribuindo uma curva de distribuição forçada. Contudo, a solução acabou apenas agravando o problema, pois ao colocar as pessoas em diferentes pontos da escala (1 a 5) houve a sensação de que o sistema era manipulado. “Na escola, em teoria, todos os alunos podiam tirar uma nota 10 dependendo de quanto estudavam. O mesmo não acontece no trabalho. As pessoas começaram a lutar por notas, o que reduziu a colaboração. E, se nos anos 1980 a colaboração não era crucial, hoje ela é essencial”, aponta Rock.

Matheus Haddad, fundador da WebGoal, defende ser esta prática ultrapassada e sem sentido para o momento atual, pois parte de uma maneira de pensar mecanicista e ultrapassada, onde as pessoas são vistas como peças; apenas como recursos, que podem ser substituídos por outros se não estiverem produzindo o que fora estipulado.

Para ele, este processo precisa ser encarado pelo mindset da era do conhecimento e não industrial. Isto é: ao olhar as empresas como uma máquina, onde tudo tem seu lugar e tudo precisa estar integrado como se fosse um relógio a avaliação de desempenho se torna simples, pois o que se está avaliando é a função e se o desempenho não está bom troca-se a peça (pessoa), até esta também se desgastar.  

Porém, no trabalho do conhecimento e criativo, que é a nossa realidade, onde o trabalho é colaborativo os resultados não são de uma peça, mas do todo. Ou seja, o trabalho é interdependente e torna-se inviável apontar valores a contribuição de cada membro do organismo.

É impossível atribuir valores individuais, por exemplo: João contribui 20% com o projeto; Maria contribui 80%. Haddad exemplifica: “É algo mais orgânico. Podemos usar o futebol como exemplo, será que o Messi é bom mesmo ou o time todo do Barcelona o é? Então, vou avaliar o desempenho do Messi ou do Barcelona? Se eu colocar o Messi jogar no Avai, será que ele conseguiria ser o melhor do mundo?”.

A possível solução apontada por Haddad é a aplicação de feedbacks, não pela lógica de notas, mas pelo ponto de melhorias, onde a própria pessoa ao receber um feedback avalia quais pontos são pertinentes e como ela irá trabalhá-los. Além disso, ao construir um sistema de feedbacks melhor é a comunicação e a interação entre as pessoas.

Leia mais sobre o assunto: Por que ainda usamos rédeas?

 

info

CTA_novo