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Gestão de conhecimento: a importância de saber selecionar

Devsen Kruthiventi, diretor de aprendizagem e desenvolvimento, gestão do conhecimento e comunicação interna da Tata Projects Limited, em entrevista à Revista Exame recorre à deusa Saraswati para explicar o desafio da gestão do conhecimento.

A deusa que é representada por uma mulher com quatro braços, tocando um sitar, com um rosário indiano e um livro, aparece sentada sobre uma flor de lótus, ao lado de um Cisne branco. Segundo Kruthiventi, a imagem ilustra as fases da gestão do conhecimento uma vez que é preciso meditar (rosário); socializar (sitar); perpetuar (livro) e saber selecionar (nas palavras de Kruthiventi, o cisne é a única ave capaz de separar o leite da água)

Luís Lindner, designer instrucional da DOT Digital Group e mestre em Mídia e Conhecimento, com menos misticismo, corrobora à afirmação de Kruthiventi. Para ele, a gestão de conhecimento vai muito além da documentação, ela envolve pensar em como as empresas podem tirar o melhor proveito de seu ativo intelectual e gerar resultados a partir disso.

Em entrevista exclusiva ao Cultura, Lindner fala da importância de se ter uma metodologia de gestão do conhecimento bem delineada já na cultura da empresa.

O  que de fato é gestão do conhecimento?

Interessante, porque já ouvi algumas vezes a frase “Precisamos documentar como se faz essa atividade, assim, quando uma pessoa diferente precisar fazer o mesmo, basta ler o manual. Precisamos fazer a gestão do conhecimento.” Realmente, registrar o conhecimento é importante, mas a gestão do conhecimento vai muito além. Ela envolve pensar em como o conhecimento da organização pode ser aproveitado para gerar resultados melhores. Como disseminar melhor o conhecimento? Como construir novos conhecimentos? A gestão do conhecimento envolve a gestão de diferentes processos, mídias, tecnologias e pessoas com objetivo de construir, registrar, organizar e disseminar o conhecimento nas organizações.

Por que as empresas devem investir na metodologia?

Investir em gestão do conhecimento é investir na geração de valor e retorno para empresa. Cria-se um ambiente mais propício para troca, para o desenvolvimento de novas competências e com isso, para inovação.

A gestão do conhecimento é um ativo estratégico, por quê?

Por causa da sobrevivência em meio às mudanças. Uma boa gestão do conhecimento permite que a organização se adapte melhor aos cenários nos quais está inserida. Ela aprende mais rápido, sente mais rápido o ambiente externo e consegue se remodelar com agilidade e eficácia. A flexibilidade está diretamente relacionada com uma forte cultura de compartilhamento e construção de conhecimento.

Segundo Devsen Kruthiventi, da Tata Projects Limited, a gestão do conhecimento deve ser iniciada no recrutamento, como fazer isso?

Identificando perfis profissionais voltados para o compartilhamento do conhecimento. Hoje, saber trocar informações, discutir abertamente e identificar diferentes cenários é essencial. Além disso, é importante que o profissional saiba aplicar o conhecimento gerado. Por isso, no recrutamento, já podem ser identificadas competências como saber compartilhar, colaborar e aplicar o que se aprende no dia a dia.

A gestão do conhecimento é vital para o sucesso das empresas?

A gestão do conhecimento é vital para o desenvolvimento da empresa. Se não aprender, ela não evolui. E, nos dias de hoje, qual empresa resiste se ficar estagnada?

A tecnologia é uma aliada neste processo? Há empresas que investem em intranetes e plataformas de comunicação internas para estimular o compartilhamento de conhecimento entre colaboradores, áreas e setores. O caminho é este?

A tecnologia é essencial nesse processo. A gestão do conhecimento promove um ambiente de constante compartilhamento e construção de conhecimentos, e, para isso, é crucial que se utilize uma ou mais mídias adequadas. O caminho é adotar uma plataforma ou um conjunto de mídias que melhor se integre à cultura da organização. Além disso, vale lembrar que o fator sociabilidade é muito importante em qualquer meio. Basta observar em qual local as pessoas se sentem mais à vontade para trocar ideias: na sala de reuniões ou no café? Em geral, plataforma mais flexíveis, mais próximas das redes sociais, facilitam a troca.

Quais são os primeiros passos para iniciar a gestão de conhecimento?

Definir os objetivos da GC. Dependendo da situação da organização, ela pode querer registrar uma série de processos. Outro caso seria uma necessidade de rápida adequação a determinado mercado. Uma vez definidos os objetivos, é muito importante pensar nos processos, na tecnologia (a mídia que será utilizada) e nas pessoas. Como será a troca de conhecimento? Como ele será integrado ao que já fazemos hoje? É preciso mapear o que a empresa já tem de capital intelectual, o que ela pode desenvolver e o que precisará no futuro.

Algumas empresas ainda têm por cultura de reter o conhecimento a determinados níveis hierárquicos, como reverter esse quadro?

Além de políticas adequadas de compartilhamento, a utilização de plataformas abertas e horizontais facilita a percepção de que todos podem contribuir com a organização.

Qual o papel da liderança na gestão do conhecimento?

O papel da liderança deve ser o de promover o compartilhamento e a aplicação do conhecimento. Na gestão de conhecimento, a liderança não deve ser centralizadora, mas sim motivar a rede de pessoas a compartilhar e organizar as informações, pensando sempre nos objetivos do negócio. É como um maestro incentivando e regendo as contribuições individuais, que formam um todo e geram resultados para organização.

Quais os riscos em não investir na gestão do conhecimento?

Desorganização interna, atraso e falta de sintonia com mercado, pouca flexibilidade, dificuldade para mudanças, estagnação. Isso sem contar o risco de se perder o capital intelectual, caso ele fique com as pessoas quando saírem da empresa.

Como associar recursos tecnológicos a fatores humanos (como a criatividade)?

Se a ideia é entender como os recursos tecnológicos podem auxiliar no compartilhamento de conhecimento tácitos, aqueles difíceis de serem explicitados, talvez eu possa apresentar alguns pontos de vista, mas esta também é uma questão complexa. Você já teve ter percebido que alguns conhecimentos como andar de bicicleta e tocar um instrumento não conseguem ser desenvolvidos apenas lendo um manual. Tem coisas que precisam da prática, da vivência – a experiência. Nesse sentido, a tecnologia entra para oferecer um ambiente que seja o mais propício possível para que a pessoa exercite e construa aquele conhecimento. Competências pessoais como a criatividade também dependem de um ambiente favorável, com os estímulos adequados, inclusive permitindo a socialização e a troca com outras pessoas.  Para desenvolver a criatividade (e todos podem desenvolvê-la), o ambiente precisa ter flexibilidade, permitir a criação, o erro e discussão livre. Também é essencial que ele seja rico em informações sobre as quais se pode discutir e criar novas ideias, por exemplo com uso de painéis de referências.

É possível usar a GC aliada ao planejamento estratégico para gerar vantagem competitiva?

É possível e super recomendado! Se você pensar na vantagem competitiva como aquele fator ou conjunto de fatores que diferencia a sua organização das demais, é essencial conhecer bem o contexto no qual se está inserido, não é? É preciso estar antenado no que os outros oferecem e mais ainda no que pode surgir mais adiante. Quais as tendências do seu mercado? Reconhecer bem o cenário, discutir internamente, criar soluções diferenciadas e construir produtos inovadores são atividades essencialmente motivadas por uma boa GC. E naturalmente elas podem gerar a vantagem competitiva. Vale a pena investigar mais esse assunto, existem cases e pesquisas relacionando praticas de GC e inovação, por exemplo.

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Entrevistado

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Luís Lindner é designer instrucional da DOT Digital Group e mestre em Mídia e Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina.

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