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Foo Fighters nos ensina a brincar com a nossa vida profissional

[Por Luciano Ribeiro via Papo de Homem]

Vale a pena lembrar como é incrível relaxar e brincar com o que você faz.

Ter um trabalho criativo, fazer o que ama, pensar, produzir. Nossa cultura enaltece bastante quem tem essa capacidade e, ainda por cima, é capaz de viver e tirar seu sustento dessa coisa que tanto gosta. É o sonho.

Mas, na prática, como tudo na vida, não é bem assim que funciona.

O mito é que uma das formas de ser feliz na vida é encontrar aquilo que você ama e transformar isso na sua profissão, assim, você vai poder fazer essa coisa todos os dias pelo resto dos seus dias.

Sim, eu acho que fazer algo que dá prazer é uma forma de obter energia e fazer os dias fluírem com um pouco menos de peso.

Mas afirmar que ter uma dose de seja lá o que for todos os dias vai trazer felicidade e energia é como dizer que comer bolo de chocolate vai dar aquele mesmo impacto delicioso pra sempre. Você e eu sabemos que isso não é verdade.

Ainda assim, desistir completamente da vida e fazer qualquer coisa de qualquer jeito pelo seu próprio sustento só por que a felicidade última não está ali também não parece uma via razoável.

Se você quer manter a sanidade e ter um pouco de gás pra acordar de manhã, continuar gostando do que faz é um desafio a mais para a própria vida profissional.

Imagina, por exemplo, que você é o Dave Grohl.

Eu estive no último show do Foo Fighters em São Paulo, no Morumbi. O estádio estava lotado, as pessoas se amontoavam em frente ao palco, as meninas gritavam, os homens cantavam, o chão tremia, luzes, sorrisos, lágrimas, milhares de fotos e eventos acontecendo ao redor do que a banda faz. É lindo.

Mas todo dia deve enjoar, né?

À parte disso, lembro de uma fala específica quando, em algum momento, Dave Grohl, escandalizado com a proporção de tudo aquilo, comenta de passagem algo como “É, nós não vamos ficar muito maiores que isso. Pra nós, esse é provavelmente o fim da linha” – aspas que estou montando de memória, se lembrarem da fala exata, agradeço.

É significativo quando alguém como ele, sob os holofotes e olhares de algumas dezenas de milhares de pessoas, diz uma frase que soa até um pouco apática, se olharmos com atenção.

Pense como deve ser estar na pele dele, descer do palco, ir pra casa, cuidar das crianças, pagar as contas, discutir com a esposa, como qualquer outro. E, depois, ter que fazer aquela coisa que um dia amou, mas na frente de um monte de gente, com uma pressão imensa e agenda apertadíssima. Pior, ter que demonstrar que está bem e feliz e com a mesma empolgação em todo santo show.

Pra mim, ainda que eu veja como deve ser prazeroso e interessante, soa um pouco cansativo.

E aí, você descobre que, nos intervalos entre uma turnê e outra, os caras do Foo Fighters, ao invés de descansar, decidem fazer uma aparição surpresa sob o nome de Chevy Metal, a banda de covers do baterista, Taylor Hawkins. É algo a se admirar.

Se você para pra pensar nisso tudo e tenta olhar sob a ótica deles, faz bastante sentido. Quando eles pegam os instrumentos e se juntam para tocar outra coisa que não o repertório do Foo Fighters (que todos ali certamente gostariam de ouvir) em um lugar pequeno e, ainda assim, de surpresa, não é mais trabalho o que estão fazendo. É outra coisa.

Seria o equivalente ao Neymar jogar uma bola com os vizinhos de infância no final de semana.

Eu imagino que deve ser como resgatar de volta o brilho de se ligar os instrumentos na garagem de casa e tocar para meia dúzia de amigos enquanto toma umas cervejas. Leve, descompromissado, divertido.

É frequente eu esquecer de fazer o mesmo aqui, na minha rotina. Escrever, desenhar, cantar ou tocar sem o peso de tentar fazer algo profissional. É uma prática que traz de volta um sabor diferente à rotina.

Às vezes, a gente não precisa de uma nova carreira ou um novo emprego. Em alguns momentos, não é a configuração específica do que você está fazendo que está transformando a vida em um vale pantanoso de tédio e apatia. Pode ser só que o eterno contexto de pressão e cobrança esteja tirando o brilho disso que hoje você é forçado a fazer, mas que um dia era algo realmente divertido e interessante.

Então, deixo essa frase como um lembrete pra mim mesmo:

Vale a pena lembrar como é incrível relaxar e brincar com o que você faz.

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