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Proteção contra o mais do mesmo

[por Paula Nader via update or die]

Quando quase ninguém tinha uma agenda escola-balé-natação-teatro-mandarim-empreendedorismo-culinária a partir dos cinco anos de idade, por mais que você tivesse uma ou outra coisa fixa na semana, tempo livre era uma constante.

Para preenchê-lo, estímulos quase repetitivos: gibis, poucas revistas nacionais, 10 canais de TV e rádio – sim, o desafio de gravar fitas cassete com suas músicas preferidas acertando a hora exata de apertar o ‘rec’ e calculando o tempo para não cortar a última no meio era um bom jeito de preencher uma tarde livre. Grandes trilhas sonoras, engenhocas e, claro, besteiras eram feitas para compensar o tédio.

E é aqui que entra meu ponto: tédio não existe para aborrecer, tédio existe para estimular.

Assim como o nojo, que é uma reação instintiva do organismo para te impedir de comer algo estragado, por exemplo, o tédio é uma reação de repulsa do ser humano ao ‘mais do mesmo’.

E não é a Paula Nader quem está falando, mas sim estudos produzidos por universidades (Michigan, nos Estados Unidos, Calgary e York, no Canadá, por exemplo), que concluíram que tédio é uma experiência “aversiva de querer, mas não conseguir, se engajar em uma atividade satisfatória”.

E essas conclusões nasceram a partir da avaliação de registros de conversas lideradas por Sartre, Flaubert e tantos outros escritores, cientistas, artistas e empresários que reconheceram publicamente que produziram coisas criativas e inovadoras como forma de curar seu tédio.

E por que “curar”? Porque é uma sensação que ninguém gosta de experimentar, por seu aspecto angustiante, e muitos tentam evitá-la, sem reconhecer o quanto ela pode ser útil.

Hoje em dia, parece que tédio virou tabu. Diferente da Idade Média, quando era sinal de status e riqueza, já que só os muito ricos e distantes de atividades braçais conseguiam admitir a sensação, tédio atualmente é entendido como preguiça, quase desleixo, uma coisa a se evitar.

Assim, para muitos adultos do nosso tempo, bacana e produtivo é ter uma agenda impossível, daquelas onde o dia passa e a pessoa mal consegue ir ao banheiro (mas posta tudo, às vezes até o banheiro). Para os que têm filhos, bacana e produtivo é repetir esse padrão com os pequenos. Tudo entremeado por uma, duas, cinco, dez telas. Estamos confundindo tédio com falta do que fazer e achando que agenda cheia e estímulos variados vão nos livrar da angústia de, em alguns momentos, não achar graça em nada.

Eu já acho que bacana e produtivo é se entediar de vez em quando. Porque, se muitos dos melhores insights de todos os tempos, inclusive dos últimos 10 anos, saíram de cabeças que tentavam escapar de momentos de tédio profundo, tédio is the new black.

¿Que te parece?

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